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ASERC - Associação Nacional das Empresas de Recuperação de Crédito

Informativo

Publicado em 28/12/2016 09:30

Veja o que especialistas esperam para a economia brasileira em 2017

O Brasil atravessou o ano de 2016 com sua economia em uma severa recessão. Ainda há incertezas quanto à recuperação em 2017.

 

O ano de 2017 tende a ser melhor do que 2016, mas ainda não deve apresentar um ritmo mais forte de atividade econômica, que vai se recuperar com mais intensidade somente no segundo semestre, avaliaram economistas consultados pelo G1.

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e para o economista Alexandre Schwartsman, o Produto Interno Bruto (PIB), após recuar 3,8% em 2015 - o maior tombo em 25 anos - e com retração maior do que 3% neste ano, deve voltar a crescer em 2017 - mas a uma taxa reduzida, entre zero e 0,5%. Para Bruno Fernandes, analista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o PIB deve ter uma pequena alta, ou uma pequena contração, muito próximo da estabilidade no ano que vem. 

Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, afirma que há possibilidade de crescimento fraco. “A gente não identifica um motor de crescimento se materializando rapidamente para o ano que vem”, afirma. A especialista afirma que um possível crescimento, embora ainda baixo, poderá ser observado apenas a partir do segundo semestre. “Mesmo que os números sejam muito fracos, o sentimento tende a ser melhor.” 

Já Rogério Mori, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EESP), vê a economia brasileira estagnada. “Vamos ter crescimento zero em 2017, porque o consumo das famílias não dá sinais de melhora e deve continuar fraco. Além disso, o governo não terá muito espaço para gastar no ano que vem, devido ao ajuste fiscal. Não sabemos exatamente quando a economia vai se recuperar”. 

O economista e consultor financeiro Miguel Daoud tem uma previsão mais pessimista ainda. “O Brasil vai ter queda entre 1% e 2% do PIB”, diz. “O grande problema que nós vamos ter é a questão fiscal dos estados, municípios e a própria União. Isso vai gerar uma pressão social muito grande”, analisa. “O endividamento das pessoas, apesar de não crescer, ainda preocupa.” 

Diante da forte deterioração das contas públicas, com rombos elevados, os analistas não sugerem novos estímulos fiscais, por meio da redução de tributos ou aumento de gastos públicos. Eles afirmam que motor da recuperação poderá vir de uma intensificação do processo de corte dos juros básicos da economia - que já foi iniciado pelo Banco Central em outubro. 

"O ponto principal a ser trabalhado agora é a questão dos juros para tentar viabilizar uma retomada dos investimentos e do emprego, mantendo uma política fiscal equilibrada", afirmou Fernandes. "Não tem muito o que fazer. É contar que a redução de juros comece a bater na atividade. Tem bastante juro para cortar", disse Schwartsman. 

Desemprego

 desemprego, que hoje atinge 11,8% da população ocupada e aflige 12 milhões de brasileiros, deverá continuar a crescer em 2017, segundo os analistas. O aumento do emprego é um dos últimos passos da ainda incerta recuperação da economia.

Rogério Mori projeta que a taxa vai atingir o pico de 16% “na virada do primeiro para o segundo trimestre”. Já Miguel Daoud também estima um crescimento, mas em ritmo menor, chegando a 13,5%. “Não vai avançar muito porque a economia do Brasil é muito grande. O que está ocorrendo é o aumento da informalidade”, aponta. 

Zeina Latif explica que a baixa produtividade no Brasil explica porque os economistas preveem uma demora na retomada do emprego. “As demissões que ocorreram não foram ainda suficientes para melhorar os indicadores de produtividade. Isso indica que tem gente ocupada, mas ainda produzindo pouco”, diz a economista. “A estabilização do mercado de trabalho não aconteceu ainda, é uma variável que reage de forma mais defasada.” 

Inflação

A inflação deverá perder força em 2017, consequência da própria recessão, que esfriou o consumo. Para 2017, o mercado já prevê um índice abaixo de 5%, conforme o último relatório do Banco Central que reúne as projeções de economistas.

Zeina Latif lembra que “tem um bocado de espaço para uma desinflação". “Muitos choques na economia contaminaram os preços de uma forma geral (em 2016), como o aumento da energia, a depreciação cambial, a alta do preço dos alimentos pelo clima”, lembra a economista. “Esses choques foram superados. Os principais determinantes estão na direção de puxar a inflação para baixo", afirmou a economista. Ela lembrou que o câmbio não é mais um motivo de preocupação e que a atividade econômica está em queda. 

Miguel Daoud também estima que a inflação vai cair, mas ressalta que não vai chegar ao centro da meta do Banco Central, de 4,5% ao ano. Segundo ele, a inflação "não é resultado apenas do fenômeno de oferta e demanda, mas da expansão monetária que está aumentando dia a dia” com os gastos do governo. 

Da mesma forma, Mori acredita que a inflação “vai demorar para voltar a convergir para o centro da meta”. Ele aponta ainda que “podemos ter algumas surpresas negativas, especialmente em janeiro, com o aumento nos preços dos combustíveis anunciado pela Petrobras e alta dos preços dos materiais escolares. 

Juros

corte da taxa básica de juros pelo Banco Central deve continuar em 2017, segundo os economistas, mas com ritmo moderado. A redução não deverá gerar impactos imediatos para o consumidor, mas pode criar um ambiente mais positivo para a retomada dos investimentos.

A previsão do mercado financeiro é de que o juro básico, a chamada taxa Selic, atualmente em 13,75% ao ano, caia para 10,50% ao ano no fim de 2017. Os juros brasileiros são os maiores do mundo. A redução das taxas tende a diminuir o custo de investimentos e favorecem o pagamento de dívidas. 

Rogério Mori diz que “os juros vão acompanhar a melhora da inflação”, mas ressalva que essa queda “não vai ser tão rápida como se espera”. “Não acredito em cortes de mais de 0,5 ponto percentual de uma vez, porque ainda podemos ter algumas surpresas negativas na inflação que podem postergar uma queda maior da Selic.” 

O economista Alexandre Schwartsman disse que a expectativa, neste momento, é de que o processo de redução da taxa de juros comece a impulsionar a demanda por um lado e acelere o processo de concessões. Para ele, o corte dos juros pode abrir oportunidades para investimentos em infraestrutura. 

Zeina Latif explica que “o corte de juros pode trazer algum alento, mas o efeito não é automático” para a população. Com juros mais baixos, o efeito esperado é que o consumo das famílias aumente, ajudando no crescimento econômico. Mas, “quando a gente analisa o tempo que demora para a política monetária impactar na atividade econômica, são dois trimestres para ter efeitos mais palpáveis”, aponta a economista. 

Miguel Daoud ressalva que, mesmo com a queda da Selic, a retomada do consumo pode não acontecer, pois ela depende de outros fatores além dos juros. “A retomada do consumo vai ser muito lenta, porque está muito ligada ao desemprego e à queda da renda”, diz o economista. Ele lembra que a queda da Selic pode não ser repassada aos consumidores pelos bancos devido a fatores como os elevados índices de inadimplência. 

Câmbio

No começo de 2016, o dólar chegou a superar o patamar de R$ 4, o maior valor da história do Plano Real, mas teve uma queda expressiva ao longo do ano. Os economistas não acreditam que uma disparada tão forte possa se repetir em 2017, e projetam que o dólar se equilibre entre R$ 3,50 e R$ 3,70.

É difícil prever o comportamento do dólar em 2017, pois o câmbio está muito pressionado pelas incertezas do cenário externo. “Ainda existe uma grande incógnita quanto à tendência do câmbio. Podemos ter algumas surpresas que não sejam tão positivas”, diz Rogério Mori. 

Zeina Latif diz que “o fator preponderante é o cenário internacional”, embora o cenário interno, como a crise política, também interfira no preço da moeda dos Estados Unidos em relação ao real. “Pelo fator interno, a nossa moeda apanhou mais do que outras emergentes quando houve a pressão cambial”, lembra. 

“A tendência do dólar é continuar se valorizando, mas algo muito suave, sem grandes correções”, diz Zeina Latif. “Acredito que a tendência para 2017 é o dólar se valorizar. Não chegaríamos a R$ 4, mas pode alcançar a faixa de R$ 3,70”, afirma Rogério Mori. 

“O ponto de equilíbrio do dólar é R$ 3,50, o que representa a paridade de troca e beneficia todos os setores da nossa economia. Eu vejo o dólar no ano que vem buscando esse ponto de equilíbrio”, aponta Miguel Daoud. 

Contas públicas

Ao longo de 2016, o governo adotou medidas para tentar reequilibrar as contas públicas, como o teto para o crescimento dos gastos, já promulgado pelo Congresso, e a reforma da Previdência, em tramitação. Mesmo assim, a previsão do governo é fechar o 2017 com um rombo de R$ 139 bilhões.

“O quadro fiscal não deve ser muito melhor em 2017 que em 2016”, prevê Rogério Mori. “A arrecadação não vai ter grandes saltos no próximo ano, apesar do teto de gastos públicos limitar as despesas. As medidas de austeridade fiscal aprovadas agora no Congresso terão um impacto mais de médio e longo prazo.” 

Zeina Latif diz que, “para o governo fechar o ano com um déficit menor, vai precisar ter alguma surpresa na arrecadação”, o que ela não avalia como provável. “O aumento dos gastos públicos vai continuar por um tempo, não tem muito jeito. A reforma da Previdência vai ajudar a conter os gastos, mas só lá na frente. A administração das contas públicas vai continuar muito dependente da arrecadação, que vai ser muito lenta.” 

Miguel Daoud lembra ainda que a fragilidade nas contas dos estados e municípios é um ponto de atenção, com alguns governos já tendo decretado calamidade financeira e outros ameaçando fazer o mesmo. “Os estados e municípios não conseguem cumprir suas obrigações, e depois ficam livres da Lei de Responsabilidade Fiscal.” 

Cenário Externo

projeção dos especialistas é que a economia global continue em ritmo lento em 2017, com o comércio internacional desaquecido. Eles destacam que há incertezas envolvendo a política monetária dos Estados Unidos após a eleição de Donald Trump e o cenário na Europa após a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia.

“O quadro externo não é exatamente benigno, porque o comércio internacional está praticamente estagnado”, diz Zeina Latif. 

O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, sinalizou que vai aumentar a taxa de juros no país em um ritmo mais acelerado – o que motivaria uma tendência de alta do dólar em relação a outras moedas, uma vez que o país se tornaria mais atraente para investidores. 

Rogério Mori aponta que o Fed “continuará subindo os juros de forma gradual, mas isso vai continuar condicionado à robustez da atividade econômica”. 

Sobre mudanças na política monetária com Trump na presidência, Zeina Latif afirma que, “se por um lado é um novo mundo, por outro não tem espaço para destemperos.” “Ele não vai sair aprovando coisas que o Congresso considere excessivas. Mesmo boa parte do eleitorado sabe que muito do discurso eram exageros de campanha.” 

Sobre a Europa, o economista Miguel Daoud aponta o risco de outros países, a exemplo do Reino Unido, iniciarem discussões para deixar o bloco europeu. “Temos uma situação muito delicada. Pode afetar o Brasil pela moeda, e tem também a questão do comércio.” Já Zeina Latif diz que, “apesar desse mundo novo, tem um espaço muito limitado para experimentalismo de política econômica, mesmo nesses países com perfil mais nacionalista”. 

A economista também afirma que o mercado internacional “pode ter algum alento” se a China realmente acomodar o ritmo de crescimento do PIB, após a onda de preocupações globais em torno da tendência de desaceleração. “Isso pode se traduzir em preços de commodities confortáveis, o que é bom para os países emergentes.” 

Fonte: http://especiais.g1.globo.com/economia/2016/o-que-esperar-da-economia-em-2017/