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ASERC - Associação Nacional das Empresas de Recuperação de Crédito

Informativo

Publicado em 10/04/2015 09:48

Brasileiros estão raspando a poupança para organizar o orçamento

Foi o dinheiro guardado na poupança aberta há 17 anos que garantiu o pagamento das contas da família da autônoma Joselda Pereira Henchs, 26 anos, do Jardim do Bosque, em Cachoeirinha.

Foi o dinheiro guardado na poupança aberta há 17 anos que garantiu o pagamento das contas da família da autônoma Joselda Pereira Henchs, 26 anos, do Jardim do Bosque, em Cachoeirinha, nos últimos tempos. Desde janeiro deste ano, quando ela viu despesas com energia elétrica e água dispararem, além de alguns imprevistos que desorganizaram o orçamento, a saída foi raspar a poupança.
 
Esta atitude pode ser uma das explicações para o registro da maior retirada de recursos da poupança nos últimos tempos. Conforme números do Banco Central, em março, a caderneta registrou a saída líquida (retiradas menos depósitos) de R$ 11,43 bilhões. Foi o terceiro mês seguido em que a aplicação registrou recorde de saídas de recursos.
 
Outra possibilidade é o fato de que, com a elevação das taxas de juros, um movimento de combate à inflação - que em março ficou em 1,32% e, nos últimos 12 meses, chegou a 8,13% (maior alta desde 2003), enquanto o teto da meta do Governo Federal é de 6,5% - a caderneta deixou de ser atraente aos poupadores. Com isso, o dinheiro que ia para a poupança pode ter migrado para outros investimentos mais rentáveis, como títulos do Tesouro Direto ou CDB, por exemplo.
 
Melhor que fazer empréstimo
 
A economista-chefe da Fecomércio-RS, Patrícia Palermo explica que não há indicadores que garantam que o recurso da poupança está sendo utilizado exclusivamente para completar a remuneração mensal, embora essa seja uma possibilidade diante de aumentos como o da energia elétrica e dos combustíveis, por exemplo, cuja capacidade de economia é reduzida.
 
A inflação está mais alta, e as pessoas estão perdendo poder de compra em coisas que são difíceis de deixar de consumir. Muitas famílias se veem na situação em que o orçamento está muito prejudicado e fazem saques para ajustes momentâneos observa.
 
Conforme a economista, a maioria das pessoas têm a poupança por precaução. Neste caso, utilizar o recurso para pagar contas é mais recomendado do que fazer um empréstimo, cujos juros são bem maiores que o rendimento da poupança (6% ao ano). Já a inadimplência é prejudicial para todos: quem deve, a empresa e a economia.
Saída para evitar a inadimplência
 
Foi um problema de saúde que motivou o saque na poupança da família da esteticista de animais Maria do Carmo Moreira, 21 anos, do Bairro Cascata, na Capital, aberta há três anos. A necessidade de comprar remédios para tratar uma crise de asma da filha de quatro anos motivou uma retirada.
 
 Chegou a fatura do cartão, de R$ 2 mil, e eu me apavorei conta Maria.
 
Até então, a conta poupança recebia depósitos do que sobrava do salário com o objetivo de, futuramente, comprar uma casa pré-fabricada.
 
 O cartão (cujo juro mensal é de 10%) é uma coisa que a gente precisa. Antes de ir para o SPC, preferi pagar a conta.
 
A esteticista observa que, como despesas como aluguel e luz também subiram, ficou mais difícil a manutenção do orçamento. Ela divide a despesa da família de quatro pessoas, que inclui creche para as crianças, aluguel, rancho e luz com o esposo, que é motorista.
 
 Minha ideia ?tentar repor todo o  dinheiro que retiramos da poupança. Pretendo cortar despesas como tevê por assinatura e diminuir o cartão planeja.
 
A poupança salvou o orçamento
 
De acordo com Joselda, a conta de luz da família disparou de R$ 60 para R$ 174. Já a fatura da água, que vinha em torno de R$ 80, pulou para R$ 118. Mesmo com o chuveiro a gás e o ar-condicionado desligado, a despesa com energia não diminuiu.
Joselda e o esposo, que trabalha como gesseiro, também precisaram comprar um carro para levar o filho de dois anos ao hospital sempre que necessário e ainda tiveram gastos com um tratamento para asma. Eles ainda têm a prestação da casa para arcar todos os meses, a lista do material escolar do filho de seis anos, entre outros compromissos. Antes de mexer na poupança, o casal pensou em outra possibilidade:
 
 Pensamos em pegar um empréstimo, mas vimos que não vale a pena por causa dos juros. Sempre conseguimos pagar as contas e ainda sobrava um pouquinho para um sorvete. Mas, agora, está tudo contado e cortamos o que era possível até nos estabilizarmos  conta.
 
NÚMEROS
 
- Em janeiro deste ano, R$ 5,52 bilhões deixaram a caderneta. Em fevereiro, foi R$ 6,26 bilhões e, em março, R$ 11 bilhões.
 
- No acumulado do primeiro trimestre, a retirada líquida (acima do valor dos ingressos) de recursos da poupança somou R$ 23,23 bilhões, maior valor da história para o trimestre. Isso é quase o valor de toda a entrada de recursos de 2014 (R$ 24,03 bilhões).
 
- O volume total de recursos aplicados na caderneta diminuiu em março. No fim de 2014, o estoque de recursos na poupança totalizava R$ 662,7 bilhões, passando para R$ 660 bilhões em janeiro e R$ 658 bilhões em fevereiro. No fim do mês passado, foi de R$ 650 bilhões.
 
- O endividamento das famílias com os bancos, em relação à renda acumulada dos últimos 12 meses, somou 46,35% em janeiro, o segundo maior da história.
 
Outras opções para investir
 
O economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE), Guilherme Stein, observa que esta é uma tendência da economia: a inflação mais alta, o crescimento negativo da economia, o desemprego, a consequente diminuição da renda, enfim, a crise contribui para que as pessoas recorram à poupança para saldar dívidas.
 
Ele esclarece que, preocupado em combater a inflação, o Banco Central elevou a taxa de juros, o que aumenta o retorno de outros investimentos em relação à poupança.
 
 Com a tendência de aumento da Selic, é possível que as pessoas deixem de aplicar na poupança.
 
Segundo o economista, a poupança é um investimento com risco baixo, que atrai pelo fato de ser isenta do Imposto de Renda e não ter taxa de administração. Mas o Tesouro Direto (programa do governo de compra de títulos públicos pela internet) é uma opção relativamente simples, embora haja cobrança de IR e taxa de administração.
 
http://aserc.org.br/brasileiros-estao-raspando-a-poupanca-para-organizar-o-orcamento