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ASERC - Associação Nacional das Empresas de Recuperação de Crédito

Informativo

Publicado em 02/07/2015 11:20

Superendividados: consumidores e financeiras tentam driblar o aumento da inadimplência

O aumento do desemprego, das taxas de juros e da inflação têm um efeito direto para o consumidor: a dificuldade em pagar dívidas.

O aumento do desemprego, das taxas de juros e da inflação têm um efeito direto para o consumidor: a dificuldade em pagar dívidas. A inadimplência chegou a 4,7% em maio, maior patamar em quase dois anos, segundo o Banco Central (BC). Instituições financeiras e trabalhadores voltam suas forças agora para combater o aumento das dívidas, com feirões de renegociação, investimento na inteligência das empresas de recuperação de crédito e até com cursos sobre como deixar de ser um “superendividado”.
 
Correr atrás de um emprego não é fácil, ainda mais com a corda em volta do pescoço ficando cada vez mais apertada. Aos 40 anos, a jornalista Naia Silveira quer criar o próprio hotsite ao mesmo tempo em que luta mês a mês para não perder o carro. 
 
“Eu fico devendo três parcelas, vou pagando sempre a última para não perder [o carro]“, diz ela. Nos financiamentos de automóveis, a maioria das instituições entra com ação para executar o veículo depois de três prestações atrasadas.
 
Além do risco de ficar a pé, Naia tem uma dívida de cerca de R$ 6 mil no banco, de cheque especial e de juros do cartão de crédito. A jornalista está empenhada em mudar de vida, tanto que seu hotsite já tem tema: educação financeira. “Vou precisar aprender para saber e para explicar”, diz aos risos, no intervalo do curso do Procon “Dívidas e Dúvidas”, voltado para endividados e superendividados. O curso faz parte do programa do Procon para renegociação de dívidas e que aposta na educação financeira para impedir que os devedores se tornem reincidentes.
 
O superendividado
 
O superendividado é aquele que começa a comprometer suas necessidades básicas por conta de suas dívidas, como o casal de aposentados Ângela Maria e Valter Gusmão. “Eu tenho 65 anos e sou aposentado por uma grande empresa, mas chega num ponto em que a gente vai afundando, e aí não tem mais jeito”, diz ele.
 
Depois de ouvirem sobre o superendividamento, veio o diagnóstico: excesso de pequenos gastos. “Ele saía para comprar uma coisa e trazia mais coisas sem necessidade, querer comprar sempre tudo do melhor”, diz a esposa, que finalmente conseguiu tomar as rédeas das finanças. Agora eles buscarão um acordo com os bancos onde devem R$ 13 mil, entre empréstimos e cheque especial. “Bom, em maio era R$ 13 mil, agora deve estar mais”, diz ela. 
 
Certamente está. A taxa média do juros do cheque especial fechou maio em 11% ao mês (249,95% ao ano), o que faz a dívida se tornar uma bola de neve cada vez maior para o casal.
 
O procedimento do Procon é realizar uma audiência do consumidor e todos os seus credores, buscando estender o prazo para o pagamento da dívida e a diminuição da taxa de juros, o que deixa as parcelas mais suaves.
 
O mercado da recuperação de crédito
 
As instituições financeiras valorizam esse tipo de estratégia e cada vez mais terceirizam o seu setor de cobrança para essa renegociação. Uma das empresas que prestam esse serviço é o grupo Siscom Telesserviços e Telecobrança, um dos 20 maiores em recuperação de crédito no Brasil, e que tem como clientes os maiores bancos do país. A taxa de recuperação de dívidas da empresa está em 69,9% este ano, em contas de crédito de veículos, imobiliário, cartão de crédito e do varejo. Em 2014, a taxa ficou em 55% e em 2013 em 55,1%.
 
Meta é continuar pagando, não só renegociar
 
O bom resultado no primeiro trimestre se deve aos investimentos da empresa no treinamento dos funcionários. Desde 2014, a Siscom investiu  R$ 3 milhões para capacitar melhor as equipes e um dos focos é que elas se tornem consultores. A ideia é que, durante a negociação, a Siscom ajude o consumidor a aprender a fazer seu próprio planejamento financeiro e não se torne um devedor reincidente. O  interesse é que o devedor continue pagando a dívida, e não que apenas renegocie, diz  o presidente do grupo Claudio Kawasaki.
 
Em momentos de crise, Kawasaki diz que o fundamental é ter estratégia: o número de devedores cresce e o número dos que podem quitar essas dívidas cai. “Você recebe um milhão de clientes que devem e o banco te estabelece uma meta de recuperação, em porcentagem”, explica. ”Eu preciso saber em quem investir minhas forças, quem são os potenciais pagadores dessa dívida”, acrescenta. ”Você tem que tentar entrar com a parte de inteligência para não gastar mais tentando recuperar o crédito do que de fato recebendo por essa recuperação”, conclui. A Siscom recebe uma porcentagem daquilo que conseguiu recuperar.
 
Telefone, internet ou mensagem
 
A parte da inteligência da empresa estuda o perfil do devedor para entender de que maneira a abordagem será mais eficiente: se por ligação, por mensagem ou mesmo por internet. “Queremos entender esse público que não quer mais ir na agência, não quer mais falar ao telefone”, diz Kawasaki. “Também é constrangedor às vezes você ser cobrado por alguém por telefone, talvez você queira fazer uma negociação via web, no momento que você quer”, completa.
 
Apesar de estar conseguindo manter bons resultados neste ano, Kawasaki afirma que a empresa revisou suas expectativas de crescimento. Em 2014, o retorno da empresa cresceu 14% e a projeção era de crescer mais 10% em 2015 e em 2016. No início do ano, com a forte desaceleração econômica, o crescimento de 2015 foi revisado para zero “Esperamos manter o mesmo volume do ano passado e retomar o crescimento em 2016″, diz ele.
 
A armadilha do desemprego
 
O desemprego é uma das maiores preocupações das empresas de recuperação de crédito e é a maior armadilha aos já endividados. “Hoje, boa parte das pessoas está com 40% da renda comprometida, mas é possível fazer uma renegociação, diminuindo a parcela, estendendo o prazo e reduzindo o comprometimento da renda para 25% a 30%, que seria o ideal”, diz Kawasaki. “Quando tem o desemprego, não tem como, não adianta você parcelar.”
 
Apesar do cenário difícil, o mês de junho mostrou certa recuperação para o setor de recuperação de crédito. A pesquisa  Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostrou que em junho o percentual de famílias endividadas registrou queda pela primeira vez em quatro meses. O percentual alcançou 62%, ante 62,4% em maio e 62,5% na comparação com junho de 2014. O levantamento abrangeu 18 mil consumidores em todas as capitais do país.
 
Em contrapartida, houve aumento no percentual de famílias com contas ou dívidas em atraso, de 21,1% para 21,3%, e o percentual de famílias que declararam que continuarão sem conseguir pagar suas dívidas, que passou de 7,4% em maio para 7,9% em junho.
 
O que fazer para não ser um superendividado
 
As dicas do Procon para não se deixar ser engolido pelas dívidas são simples, mas requerem um esforço constante.
 
- Conhecer bem sua situação financeira
- Evitar que seus financiamentos (no caso de imóveis ou veículos) ultrapassem 30% da renda família
- Estabelecer metas de economias, para sempre estar precavido em caso de emergências
- Buscar o equilíbrio (equilíbrio aqui significa gastar menos e poupar mais)
- Envolver toda a família no planejamento familiar, incluindo as crianças, assim fica mais fácil entender o que é indispensável para cada um e o que pode ser readaptado para evitar que a renda fique comprometida
 
Ajustar o padrão de vida
 
E para aqueles que já têm dívida, o Procon explica que é importante tentar uma renegociação com os credores para fazer com que as parcelas estejam abaixo dos 30% da renda, para que 70% seja destinada para os gastos básicos, como educação, saúde e alimentação. Além disso, um erro comum do endividado, explica o assessor do Procon Xavier Amador Neto, é não readaptar a realidade da família à condição de endividados. “Muitas pessoas acham que é possível manter o mesmo padrão de vida, mesmo com dívidas”, diz ele. “É preciso cortar o supérfluo, manter apenas os gastos indispensáveis”, completa. 
 
 
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